Contexto da Alta das Bolsas Americanas
Warren Buffett já comparou os juros à força da gravidade: quando eles sobem, puxam para baixo o valor dos ativos financeiros, que inclui ações. Essa metáfora ajuda a entender o que torna o movimento recente de Wall Street tão peculiar.
No período de 21 a 25 de setembro, o rendimento do Treasury de dez anos alcançou o maior patamar desde 2007. Apesar disso, os três principais índices das bolsas americanas – Nasdaq Composite, S&P 500 e Dow Jones – conseguiram terminar nesse intervalo em alta.
O Nasdaq avançou 2,1%, o S&P 500 subiu 1,2%, e o Dow viu um crescimento de 0,3%. Contudo, esses ganhos foram desafiados na segunda-feira, 28, quando o rendimento do título de dez anos subiu para 5,241%. O S&P 500 caiu 0,77%, o Nasdaq recuou 0,92%, e o Dow perdeu 0,67%.
Expectativas de Lucro e o Papel da IA
Esses movimentos parecem contraditórios.
Um aumento de juros tende a reduzir o valor atribuído aos lucros futuros das empresas. Entretanto, especialistas explicam que as expectativas de crescimento dos lucros melhoraram, especialmente entre as grandes empresas de tecnologia voltadas para a inteligência artificial.
João Arthur, diretor de investimentos da Suno Consultoria, destaca que a IA tem promovido uma revisão nas projeções de resultados, sustentando as ações mesmo diante da elevação do custo de capital. “O lucro tem surpreendido para cima”, observa.
Ele adverte, no entanto, que a velocidade da alta dos juros e a capacidade das empresas de continuar superando expectativas nos balanços definirão o futuro do mercado.
Avisos e Preocupações sobre o Mercado
Stephan Kautz, economista-chefe da EQI Investimentos, também vê a inteligência artificial como uma força propulsora das ações, embora alerte para um possível otimismo exagerado sobre os retornos dos investimentos atuais no setor.
Fernando Siqueira, da Eleven Financial, menciona que a alta dos Treasuries já está impactando as ações, mesmo que menos intensamente do que em outros períodos. Ele aponta que a inflação e o crescimento da dívida pública têm levado os investidores a exigir rendimentos maiores, enquanto as emissões de dívida corporativa pelo setor tecnológico competem com a atração dos Treasuries.
Impactos e Perspectivas para o Brasil
A alta dos juros nos EUA pode afetar também o Brasil, já que juros mais altos tornam ativos em dólar mais atrativos. Isso pode impactar diretamente o real, os juros futuros e o mercado de ações brasileiro.
Arthur e Allemann sugerem que o câmbio pode ser uma das primeiras vias de transmissão dessa dinâmica. Apesar do diferencial entre os juros brasileiros e americanos, que ainda oferece alguma proteção à moeda, uma desaceleração nos lucros das ações de tecnologia nos EUA pode, em termos relativos, aliviar a pressão sobre a bolsa brasileira.